LIÉGE CRIVELLARO

← Conteúdos

Comece por aqui

Comida boa não é o que faz um negócio de alimentação dar dinheiro

Não é a receita, não é o esforço e não é a divulgação. São três pilares — preço, cardápio e meta — e eles só funcionam juntos.

Por Liége Crivellaro  ·  Leitura de 8 min

Comida boa não é o que faz um negócio de alimentação dar dinheiro

Existem três coisas que decidem isso. Eu nunca vi um negócio saudável em que faltasse alguma delas — e nunca vi um negócio em dificuldade em que as três estivessem resolvidas.

Eu quero começar tirando um peso das suas costas.

Se o seu negócio está trabalhando muito e sobrando pouco, isso quase nunca tem a ver com a qualidade do que você faz. Eu conheço gente que cozinha maravilhosamente bem e não consegue se pagar. E conheço negócios medianos que vão muito bem obrigada.

Isso incomoda, mas ensina uma coisa importante: comida boa é o ponto de partida, não o que decide o resultado.

O que decide são três coisas. E elas não são segredo de ninguém — grandes redes trabalham com todas as três há décadas, de forma sistemática. O que acontece é que, em negócio pequeno, elas ficam sempre para depois. Porque a operação toma o dia inteiro, porque ninguém ensinou, e porque parece que trabalhar mais vai resolver.

Não vai. E é uma boa notícia, porque significa que você não precisa trabalhar mais do que já trabalha.

Você não está perdendo dinheiro por falta de esforço. Você já está no limite do esforço.

01 — Você sabe quanto custa o que você vende?

A pergunta parece simples. Quase ninguém consegue responder com precisão.

Não é o preço do saco de farinha. É quanto custa aquele produto específico, pronto, embalado, com tudo dentro: o ingrediente que teve perda na limpeza, o recheio que reduziu no fogo, a caixa, a fita, a tag, o adesivo, a colher.

E aqui está o problema: cada um desses itens some sozinho da conta. Nenhum deles, isolado, quebra um negócio. Mas eles são muitos, são pequenos, e todos moram no mesmo lugar — fora da sua planilha.

O resultado é sempre parecido. A pessoa acha que o produto custa quatorze reais. Ele custa dezoito. Ela vende por quarenta achando que está deixando vinte e seis, e está deixando vinte e dois. Em trezentas vendas no mês, são mil e duzentos reais que ela achou que tinha e nunca teve.

O que muda quando você resolve isso:

Você para de aceitar encomenda que dá prejuízo achando que está “fazendo volume”. Você passa um orçamento com firmeza em vez de arredondar para baixo por insegurança. Você descobre que alguns produtos precisam subir de preço — e outros, que você jurava serem os melhores, precisam sair.

E acontece uma coisa curiosa: a insegurança na hora de cobrar desaparece. Ela nunca foi timidez. Era falta de saber.

02 — O seu cardápio está trabalhando a favor ou contra você?

Um cardápio não é uma lista de produtos. É a planta baixa do negócio.

É ele que decide o que você compra, quanto de estoque você carrega, quanta gente você precisa, quanto tempo cada pedido leva, qual é o seu ticket médio e quais produtos vão dominar o seu mês.

E é aqui que mora a descoberta que mais impressiona quem faz essa conta pela primeira vez: o produto que mais vende costuma ser o que menos deixa.

Ele parece sucesso. Enche a agenda, gera comentário, faz o movimento parecer bom. E enquanto isso consome a maior parte da sua energia produzindo para uma margem apertada. Quanto mais ele vende, mais você trabalha — e o resultado quase não se move.

Do outro lado, quase todo cardápio tem o oposto: um produto com margem excelente que quase ninguém pede. Não porque é ruim. Porque está na última página, sem foto, com uma descrição de três palavras, e ninguém nunca o sugeriu.

Vender mais do produto certo é a alavanca mais rápida que existe. E ela não exige mexer em preço nenhum.

O que muda quando você resolve isso:

Você para de tentar vender mais de tudo e passa a vender mais do que interessa. Corta o que só dá trabalho. Coloca no lugar certo o que merece o lugar certo. Reduz a lista de compras, o estoque e o erro na cozinha — porque um cardápio bem montado usa os mesmos ingredientes em vários produtos.

E o cliente escolhe melhor. Porque cardápio confuso faz a pessoa pedir o de sempre, e o de sempre raramente é o mais rentável.

03 — Quanto o seu negócio precisa vender neste mês?

Essa é a pergunta que eu faço logo no começo de qualquer conversa. É a única que não dá para responder no chute.

Quanto você fatura, você sabe — é o que aparece no banco. Quanto você cobra, sabe de cor. Mas quanto precisa entrar para pagar tudo, incluindo você, exige cruzar três informações que quase ninguém tem juntas.

E note o “incluindo você”. Porque na maior parte dos negócios pequenos, o salário de quem toca o negócio é o que sobra. E o que sobra nunca sobra.

Um negócio que só fecha a conta porque quem toca o negócio trabalha de graça não é um negócio viável — é um negócio subsidiado por ela. Ele parece funcionar, até o dia em que ela adoece, tem um filho, ou simplesmente cansa. Aí a conta aparece inteira de uma vez.

O que muda quando você resolve isso:

Aquele orçamento com desconto agressivo: dá para aceitar? Você responde em trinta segundos. Contratar alguém: o negócio suporta? Você vê exatamente quanto a mais precisa vender. Aumentar o seu próprio salário: dá? Dá — desde que a meta suba junto, e agora você sabe de quanto.

E muda o dia 12 do mês. Sem meta, você descobre no dia 30 que o mês foi ruim, quando não dá mais para fazer nada. Com meta, você descobre no dia 12 e ainda tem dezoito dias para reagir.

Quem sabe quanto precisa vender está no controle. Quem não sabe está trabalhando na esperança.

Agora a parte que quase ninguém percebe

Os três resolvem coisas diferentes. Mas o que faz a diferença de verdade é que eles se sustentam uns nos outros.

Preço sem cardápio é uma planilha bonita. Você sabe o custo de cada produto, mas continua vendendo o mix errado.

Cardápio sem preço é decoração. Você organiza, destaca e escreve melhor — sem saber se o item que você acabou de promover é o que menos deixa.

Meta sem os dois é desejo. Um número no papel, sem nenhuma alavanca para alcançá-lo.

E juntos, eles fazem uma coisa que sozinhos não fazem: eles multiplicam.

Um negócio que fatura R$ 10.000 por mês. R$ 4.000 vão em ingrediente e embalagem. R$ 5.000 em despesas fixas, já com o salário de quem toca o negócio. Sobram R$ 1.000. Agora imagine só uma correção de 8% no preço, feita depois de descobrir o custo real. Entram R$ 10.800. O custo de produzir é o mesmo. As despesas são as mesmas. Sobram R$ 1.800. Oito por cento no preço viraram oitenta por cento no resultado.

Isso não é truque de contabilidade. É a natureza de qualquer negócio em que a sobra é uma fatia pequena do faturamento: qualquer ajuste percentual no preço vira um salto percentual muito maior no lucro.

Na vida real um aumento desses pode mexer um pouco no volume, é verdade. Mas some a isso um cardápio que empurra o cliente para os produtos rentáveis, e uma meta que te faz agir no dia 12 em vez do dia 30 — e você entende por que dois negócios com o mesmo faturamento podem ter resultados completamente diferentes.

Não é sobre vender mais. É sobre o que acontece com cada real que já entra.

Faça o diagnóstico em um minuto

Responda com honestidade. Não precisa mostrar para ninguém.

Zero a dois marcados: você está no lugar onde a maioria começa. E onde tem mais dinheiro parado esperando ser encontrado.

Três a quatro: você já tem parte da estrutura. O que falta provavelmente é o que está segurando o resto.

Cinco ou seis: você está no controle. Aqui o trabalho passa a ser crescer com segurança, e não apagar incêndio.

A ordem importa

Se você marcou pouco, não tente resolver tudo ao mesmo tempo. Existe uma sequência que funciona, e ela não é aleatória.

Primeiro o custo. Porque tudo o mais depende dele. Não dá para escolher qual produto destacar sem saber qual deixa mais. Não dá para calcular quanto vender sem saber quanto sobra de cada venda.

Depois o cardápio. Com o custo na mão, cada decisão de cardápio passa a ter fundamento: o que ganha destaque, o que precisa de ajuste, o que sai.

Por último a meta. Ela fecha o sistema. E só faz sentido quando você já sabe quanto sobra de cada venda e tem um cardápio capaz de sustentar o número.

Tentar começar pela meta é o erro mais comum. A pessoa define “quero faturar quinze mil” sem saber se o cardápio dela consegue produzir isso e sem saber se, faturando quinze mil, sobra alguma coisa.

Meta é a estrela do norte. Mas de nada adianta saber para onde ir se o barco não está preparado para a viagem.

O que isso muda de verdade

Eu poderia terminar falando de margem e indicador. Mas não é isso que muda.

O que muda é que você passa a dizer não sem culpa, porque sabe exatamente o que aquele sim ia custar.

O que muda é que mês ruim deixa de ser uma pergunta sobre você — “será que eu não sirvo para isso?” — e vira diagnóstico: o ticket caiu, o mix mudou, faltou movimento na segunda semana. Uma dessas conversas paralisa. A outra te dá o que fazer amanhã.

O que muda é que você para de ser a única pessoa do seu negócio que trabalha e recebe o que sobrar.

E o que muda, no fim, é que o negócio deixa de depender de você aguentar. Passa a depender de uma estrutura — que funciona igual no mês bom e no mês fraco, e que continua funcionando no dia em que você precisar tirar uma semana de folga.

Você não precisa fazer tudo hoje. Comece por um pedaço: escolha os cinco produtos que você mais vende e descubra quanto eles realmente custam.

Esse único movimento costuma reorganizar mais coisa do que parece — e dar a energia necessária para o próximo passo.

Precificadora

Descubra o custo real de cada produto e defina preços com segurança.

Conhecer a Precificadora →

Continue lendo