Bastidores
Eu leio cardápio de cabo a rabo desde a faculdade. Nesse tempo aprendi a enxergar os detalhes que fazem um negócio de alimentação ganhar ou perder dinheiro.
Por Liége Crivellaro · Leitura de 4 min
Eu tenho um programa preferido, e ele é meio esquisito.
Eu chego em um lugar para comer, sento, peço o cardápio — e fico ali. Muito tempo. Folheando. Lendo de cabo a rabo, linha por linha.
Enquanto todo mundo já escolheu o que vai pedir, eu ainda estou na terceira página fazendo mil mudanças na minha cabeça. E, quase sempre, encontro um detalhe que a pessoa que toca aquele negócio não está vendo — um detalhe que está fazendo ela perder dinheiro todos os dias.
Eu sou tão viciada que eu coleciono cardápios.
Durante a faculdade eu arrecadava menus com colegas que trabalhavam em restaurantes e confeitarias. Pedia cardápio para todo mundo. Se alguém ia viajar, eu já encomendava: traz o cardápio de lá.
Hoje eu faço a mesma coisa com cardápios de aplicativo e cardápios digitais que eu vejo por aí. Mudou o formato, não mudou o vício.
E essa brincadeira, ao longo de mais de dez anos, foi treinando o meu olhar para padrões que se repetem. Não padrões de comida boa — padrões de negócio que dá certo.
Não é a fonte bonita nem a foto profissional. É outra coisa.
É o produto mais lucrativo escondido na última página, onde quase ninguém chega.
É o item que vende muito e que, se eu tivesse a ficha técnica ali na mão, apostaria que está deixando quase nada.
É o “monte o seu” que parece generoso e que, por trás, significa estoque grande, erro na cozinha e preço impossível de calcular.
É a descrição que usa uma palavra que só quem é da área entende — e por isso vende menos.
É o cardápio com quarenta itens em um negócio que tem estrutura para vinte.
Quando eu digo que o cardápio é a peça mais importante do negócio, muita gente acha exagero.
Não é. O cardápio decide o que você compra, quanto de estoque você carrega, quanta gente você precisa, quanto tempo cada pedido leva, qual é o seu ticket médio e, no fim, quanto sobra no fim do mês.
Ele não é uma lista de produtos. É a planta baixa do seu negócio.
Uma pessoa pode cozinhar maravilhosamente bem e mesmo assim ter um negócio que não fecha a conta — porque o problema nunca esteve na comida.
A parte boa dessa história é essa: nada do que eu vejo em um cardápio é intuição.
É repertório somado a método. São padrões que eu observei em centenas de cardápios, cruzados com o que eu estudei na formação em gestão de negócios de alimentação, e testados na prática quando eu precisei fazer isso funcionar para mim mesma.
Ou seja: dá para aprender. E dá para aprender bem mais rápido do que os dez anos que eu levei colecionando menu de restaurante.
Monte um cardápio que trabalha a favor do seu negócio.
Continue lendo